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16/05: Speed Racer - o filme

Antes mesmo da Marvel sonhar em fazer heróis divididos entre sentimentos e senso de justiça, os japoneses sabiam como contar histórias de aventura. Em todas suas histórias, fica clara a importância de uma ficha de personagem complexa, com pontos fortes, fracos e segredos que fazem toda a diferença - principalmente quando são revelados. Speed Racer, nos anos 60, foi um destes pioneiros.
A história do corredor do carro super equipado Mach 5 conquistou fãs no mundo inteiro, que acompanharam os episódios ansiosos por decifrar quem era o Corredor X, se Trixie ia finalmente dar um beijo em Speed, qual seria a próxima macaquice de Gorducho e qual seria o próximo inimigo que tentaria impedi-lo de cruzar a linha de chegada. A premissa simples era pretexto para episódios cheios de ação e muito colorido, novidade em uma época em que Pokémon nem sonhava em dar ataques epiléticos nas crianças.
O filme, adaptado pelos irmãos “Matrix” Wachowski, tem tudo o que o desenho original tinha e muito mais. A caracterização dos personagens é idêntica ao desenho, cenas se repetem exatamente como no original, inimigos clássicos dão às caras (alguns muito rapidamente, mas o suficiente para fazer fãs vibrarem) e o principal mistério e anti-herói, o Corredor X, está lá, pronto para competir e proteger Speed das confusões em que se mete. As cenas de luta com ares de Matrix são um espetáculo a parte, que só servem para incrementar o clima elétrico do filme.
Nos anos 60, o desenho fazia sucesso também por seus carros incrementados, com habilidades especiais, e por sua trama que misturava elementos de 007 e super-heróis. Para um autor, trazer um enredo que tinha como principal atrativo falar do futuro, e renová-lo a ponto de conquistar um novo público, é sem dúvida um desafio. Os irmãos Wachowski acertam na medida quando conseguem manter tudo o que existia no programa clássico, sem perder a originalidade.
Para um filme inteiramente rodado em plataforma digital, sem externas, com atores atuando o tempo inteiro em fundo verde, Speed tinha tudo para ser um festival de luzes e cores sem sentido. Mas não é. Crianças da geração videogame vão ficar encantadas com o pisca-pisca; e pais que acompanharam o desenho vão delirar ao ver pistas clássicas como a de Montecristo ao vivo e equipamentos para lá de saudosistas, acionados pelos botões no volante do Mach 5. Speed Racer – o filme é uma homenagem digna ao original, somando o clima frenético da animação japonesa com todo o heroísmo clássico dos filmes americanos.
16/05: Homem de Ferro

Quando se trata de adaptar quadrinhos para o cinema, tudo pode acontecer. Os mais saudosistas, usualmente fãs do herói em questão, seguem a risca a ficha do personagem criada originalmente no gibi – o que não necessariamente é garantia de um sucesso cinematográfico. Às vezes o protagonista é fraco, a trama é insossa ou não é tão divertido em carne e osso. Do outro lado, estão os diretores e roteiristas moderninhos que resolvem inventar em cima do que não tem o que inventar. Nunca dá certo.
O Homem de Ferro, felizmente, é uma feliz meia-medida entre adaptações modernas e fidelidade aos quadrinhos. O enredo está lá, seguido a risca: multimilonário dono de indústria bélica muda seus conceitos ao ser raptado por o inimigo que julgava combater. A conseqüencia disso é a construção de uma armadura bélica invencível, que passa a ser utilizada para defender o bem e a justiça da humanidade, contra a carnificina da guerra. Mudanças? Da Guerra do Vietnã para o Afaganistão – um preciosismo que só colabora para a trama.
Talvez por seu histórico um tanto quanto semelhante ao álcoolatra e mulherengo protagonista, talvez por se identificar diretamente com o personagem, um sarado Robert Downey Jr e seu jeito sarcástico cairam como uma luva para o megabilionário Stark, inventor da armadura que tanto sucesso fez nos anos 80. O mesmo vale para Pepper Potts, a quase coadjuvante dos quadrinhos, brilhantemente interpretada por Gwyneth Paltrow.
Boa adaptação, excelentes atores, efeitos especiais. Em épocas de mega-produções para Homem Aranha e Hulk, o que faz de mais este filme de quadrinhos tão diferente que valha a pena a ida ao cinema? Simples. Como qualquer boa história, o que faz a diferença é a maneira com que o diretor Jon Favreau amarrou a trama. Não é preciso ser fã de quadrinhos para entender o que está acontecendo, não existem super-poderes misteriosos que não tenham explicações convincentes e os efeitos especiais são perfeitamente plausíveis – claro, dentro de um universo que não preza pela verossimilhança. Em suma, não espere um filme cabeça, porque Homem de Ferro é puro pipocão. Mas pipocão dos bons, que deixa gosto de quero mais até mesmo para quem não é fã – principalmente depois da surpresinha no final dos créditos.
26/03: Otelo
Shakespeare conhecia bem a arte da ficção. Em suas histórias, traçava personagens ricos, complexos, com segredos particulares e os colocava em tramas que respeitavam com perfeição as etapas da autoria. Ir ao teatro assistir uma adaptação deste autor é, na maioria das vezes, certeza de puro deleite. No caso de Otelo, em cartaz no Sesc Ginástico, encenada e dirigida por Diogo Vilela, é no mínimo uma surpresa.
A trama original é a tragédia da queda de Otelo, que por intrigas passa de mouro respeitado a vilão sanguinário. Como toda boa história, é claro que o vilão, Iago, tem papel importante. Mas no caso desta nova versão, ele vai além disso – é o protagonista e fio condutor de toda a peça.
Essa inversão de papéis, onde o vilão se torna centro das atenções e o suposto mocinho tem ares de coadjuvante, poderia transformar Otelo em um conto mais obscuro do que já é. Uma coisa é acompanhar a história pelo olhar do herói grego e compreender que sua derrota acontece por ele não acreditar em seu destino ou por possuir fraqueza que o afasta de sua virtude. Outra é entrar na mente do vilão e vê-lo derrubar as peças do tabuleiro, uma-a-uma, a seu bel prazer.
Diogo Vilela, seja como diretor ou como ator (atuando como Iago), tenta suavizar a morbidez com algumas tiradas cômicas, sutis, mas suficientes para levar o público ao riso. A sensação achar graça de uma tragédia causa um tanto de estranheza – talvez tivesse sido melhor não apelar para o humor. Mas ora bolas, considerando-se que estamos falando de Vilela – cujo talento para fazer graça é inegável – e que rir das próprias mazelas é uma das características do teatro, a experiência é válida. Um tanto perturbadora, se pensarmos que nós, brasileiros do século 21, desenvolvemos um estranho hábito de rir e fazer piada do que nos é trágico. Mas válida, sem sombra de dúvida.
Ainda a tempo, destaque para a Desdemona de Marcela Rica. Para alguém tão jovem, interpretar um papel como esse é um desafio – cumprido na medida, sem tirar nem pôr. Talvez alguns tons abaixo nas falas exclamadas fossem bem-vindos, mas nada que desmereça o talento da nova atriz. Nada também que não possa ser corrigido, afinal, a peça fica em cartaz até junho. Aproveite. Não é sempre que podemos ver uma boa adaptação de Shakespeare. Principalmente com o vilão no papel principal. Isso sim é exercício literário.
24/03: As Crônicas de Spiderwick

Desde que Walt Disney levou Branca de Neve aos cinemas até os dias de hoje, muita coisa mudou no mundo dos filmes para crianças. Personagens deixaram de lado a inocência e tornaram-se sarcásticos, o mal deixou de ser feio e o bom deixou de ser belo. Canções e lições de moral foram deixadas de lado em prol de ação, aventura e uma certa dose de escatologia, virando peças fundamentais para que o filme não seja considerado “careta” demais – ainda usam esta gíria por aí?
Crônicas de Spiderwick é mais uma adaptação de uma série infantil de livros, que mistura magia e amizade entre adolescentes/irmãos, acompanhando a febre juvenil por Harry Potter, A Bússola Dourada e tantas outras adaptações que não param de pipocar em Hollywood. Os protagonistas, cada um com sua habilidade em particular, têm que se unir para salvar o mundo das fadas do domínio de um ser maléfico.
Em um passado não muito distante, adolescentes vibravam quando ouviam o tema de Goonies e faziam caretas ao ver o sangue verde das bruxas de Abracadabra. Dava medo e ao mesmo tempo era divertido. O filme-pipoca adolescente tinha outro significado. Spiderwick bebe nestas fontes quando coloca monstros mal-encarados como os vilões, mas não perde a modernidade ao mostrar que nem sempre tudo que é feio é ruim. A família volta a ser pano de fundo, mas irmãos não são mais tão inseparáveis como eram antigamente – alguns chegam até a ser cúmplices dos pais, quem diria? Seres mágicos tornam-se reais com a ajuda de coisas do nosso dia-a-dia tais como pedras, sal, molho de tomate, mel. Para quê Howgarts se o mundo mágico está logo ali, no quintal de casa?
Spiderwick ousa na medida que transforma a magia algo verossímel, de fácil identificação. Ao invés de subverter contos de fada, na tentativa de ser diferente, prefere torná-los reais, brincando com a imaginação das crianças que o assistem. É uma adaptação perfeita da série de livros, que não se compromete com continuações ou imortalidade de seus personagens. Em suma, uma chance imperdível para adultos relembrarem os bons tempos da infância e ensinarem a seus filhos uma antiga brincadeira, que parece ter sido deixada de lado: o faz-de-conta.